Eu conto

(Des)pretenções literárias.


Alívio

-Tu sabes onde esse pau no cu mora?

-Sei sim. Ele está morando numa pensão na cidade baixa, no centro!

Gilson abre a gaveta, apanha com fúria o revolver e o guarda na cintura. Sai batendo a porta. Dirigindo um Chevet antigo, acende um cigarro. Quase nem acredita que vai matar aquele filho da puta. Agora está na avenida Ipiranga e vê um menino deitado no sol dormindo, pensa que devia estar drogado. No sinal uma moça, ainda jovem com um filho nos braço, pede trocados. Que vadia...pensa, mas logo vê na sua mente o rosto transfigurado de sua mãe.

Toda vez que Gilson olhava o rosto da mãe lembrava da fatídica tarde de sábado quando, apenas com três anos de idade, passeava próximo do parque da redenção onde costumava a brincar nos fim de semana. Naquele dia eles sofreram um assalto, resultando a perda de uma das visões de dona Ermendina. O assaltante deu um tiro muito próximo a cabeça de sua mãe que com o estouro acabou vazando a vista esquerda. Passou quinze anos depois do assalto e nisso, Gilson descobriu que o assaltante era filho de um de seus vizinhos, depois do assalto, o filho da puta tinha desaparecido e agora estava de volta.

Gilson chega num antigo prédio, caindo aos pedaços, um senhor de bigodes longos e engraxados o atende não dando muita importância, há uma escada que range ao pisar os degraus, parecendo desabar qualquer hora. Quarto 26. Com um chute na porta, Gilson adentra a casa de Jurandir. O assaltante acorda assustado, Gilson dispara um tiro no meio da testa de Jurandir que cai com os olhos abertos no chão.

-Tu tá olhando o quê, seu cuzão?

Com as mãos, Gilson retira o olho esquerdo de Jurandir esconde no bolso e desce as escadas calmamente, abre a porta do chevet e volta para casa da mãe.

Chegando em casa, com as mãos ainda sujas, coloca sobre a mesa da cozinha o olho de Jurandir.

-Pronto, mãe!

Os dois dão um longo abraço e o coração de Gilson parece mais leve, tão leve que chega a assusta-lo, sabe que não trata-se de felicidade, mas um alivio como se esses anos todos não tivesse dormindo e agora pela primeira vez, descansasse.

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