Perto
De repente sentiu-se só. Dirigiu-se à sacada do prédio que dava para a linda vista do Guaíba. Acendeu um cigarro e olhando o horizonte, lembrou-se dos tempos de colégio, quando ainda era uma cocótinha. Conheceu Geraldo numa reunião dançante na casa da Margarida no fim dos anos sessenta. Margarida era sua melhorar amiga, mas suas feições ela já não mais lembrava. Ao levar a mão direita em direção à boca para dar uma tragar, deparou-se com as manchas do tempo nelas estampadas, pensou no relógio, pensou no que tinha vivido há vinte anos atrás e que como parecia ter sido tudo ontem, pensou nos filhos, todos criados e casados. Pensou no porquê de estar sozinha, pensou em sua melhor música, pensou: Por que fumava? Pensou que sexo em sua idade já não fazia falta. Pensou porquê sua vizinha filha da puta não baixava a porra do rádio. Pensou na brevidade das coisas, venho em sua cabeça a validade de um saco de arroz e esboçou um sorriso daqueles que os dentes não aparecem. Pensou no respeito, nos valores. Pensou. Resignada, adentrou seu apartamento, fechou a janela e olhando um cantinho próximo da porta da entrada que estava cheio de pó, questionou-se em voz alta, ecoando por todos os cômodos da casa:
-Por que diabos não varri atrás da porta!
Sentiu-se ainda mais sozinha cansada e velha. Voltou para cama encostou sua cabeça levemente em seu travesseiro de penas, de lado, trouxe os joelhos até o peito, fechou os olhos, e uma lágrima deslizou em sua face, era como se flutuasse nas nuvens. Descansou...
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