Eu conto

(Des)pretenções literárias.


Claúdia

Colocou a melhor roupa, perfumou-se, espiou no espelho. Barba feita, roupa alinhada, perfeito.

Vou sair Claúdia. Grita para esposa, já batendo a porta. Dirigiu-se ao ponto da lotação, depois de meia hora surgiu uma dobrando a esquina. Lotada. Foi a pé o percurso todo. Volta e meia roçava, sem querer, o púbis no ombro da senhora que estava sentando à sua frente e olhava com repulsa para João. Desceu da condução, caminhou duas quadras e chegou no seu destino. Subiu as escada, era noite lá dentro. Foi ao bar tomou uma água. Logo ela surgiu. Era uma morena, acima do peso. Do nada começou a se insinuar. Porém João era direto, sem rodeios perguntou quanto era o programa. Vinte cinco. Ela respondeu mascando o chiclete ansiosamente. Ele tentou pechinchar o preço, mas acabou a convidando para ir a um dos quartos do estabelecimento. Me paga uma cerveja, ela pergunta recebe um “estou com pressa” . Conformada o acompanha até o quarto.

Ele se despe rapidamente e deita sobre a cama. Ela caminha até um outro cômodo do local, separado do quarto e adentra somente enrolada numa toalha, cheirando a sabonete barato. Ele a olha, caminha a seu redor e por trás beija seu pescoço levando levemente as duas mãos sobre ele. Pressiona, e num reflexo torce o pescoço para o lado direito. Com cuidado deita o cadáver no chão e chamando de Cláudia, conversa sobre sua vida, seus problemas financeiros, familiares, frustrações, anseios, medos. Olhando fixamente para o cadáver que ainda estava com os olhos aberto, imóvel e que a cada segundo ficava mais gelado, acende um cigarro, confere o celular, três chamadas não atendidas. Já se prepara para ouvir sermão quando chegar em casa...

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O gato

Esses filhos da puta só sabem vir aqui e cobrar. Atrasei um dia a porra conta e uma piranha ligou pro celular da mulher dizendo que iriam cortar. Caralho! Trabalho pra cacete, tenho três filhos, um de um mês e meio e vou ter que ficar no escuro porque atrasei um dia a porra da conta da luz pra ter com que comprar fraldas pras crianças? Estou pensando em arrumar um berro e quando vierem cortar a luz meto bala em todo mundo...ah, vão se fudê!

Joca, como era conhecido na vizinhança, estava desnorteado com a situação. Apenas matutava um jeito de não ficar no escuro por um mês. Três dias depois venho o rapaz para desativar a energia elétrica de sua residência. Era uma terça-feira de manhã e Joca estava no trabalho, quando chegou, às nove horas da noite, da rua pelas fresta da casa de madeira via luminosidade de um toco de vela, seus filhos estavam chorando e sua esposa esquentava uma mamadeira para dar ao caçula. Não demorou muito para brilhar uma idéia. Joca pediu uma escada para o vizinho ao lado, foi até a rua encostou a escada firme no poste do disjuntor elétrico e com um fio dublo puxou uma instalação clandestina.

No dia seguinte caçou uma aranha caranguejeira e colocou dentro da caxinha do marcador.

Manda seu filho mais velho, todo dia, catar baratas e colocar para aranha na caixa do relógio da luz. Sempre quando vem alguém tirar a marcação, Joca se esconde e da fresta da janela observa, mas ninguém se atreve a tocar no relógio. Um gasto a menos para Joca.

-Que é? Aqui só eu pagava luz! Todo mundo fazia gato. Cansei de ser trouxa!


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Provinciano

Abri o livro. Era um romance que estava lendo há meses, mas nunca terminava. Sentei no sofá da sala, reclinado para trás e com os pés em cima da mesa de centro. Acendi um cigarro, não estava com saco para ler. Percebi que a pintura do teto estava descascando. Preciso arrumar isso! Me dirigi à sacada do apartamento. As luzes já estavam todas acesas. Bares e lancherias estavam lotados. Apesar de todo o barulho de uma cidade como São Paulo, não ouvi nada além do barulho do meu cigarro queimando a cada tragada. Pensei em ouvir música, mas todos cds eram dela. Quem sabe ligar a televisão e ver um daqueles programas idiotas que passam sábado à noite...Fui até a cozinha abri a geladeira três vezes e não peguei nada. Não estava com fome. Voltei pra sala. Acendi mais um cigarro. Pensei em ir dormir, mas não conseguiria. Era muito cedo. Olhei pra o telefone. Vou ligar para um amigo...Dei uma risadinha e lembrei que não tinha. Peguei o telefone e liguei para meu pai:

-Pai, to voltando pra casa!

Ficar sozinho nessa porra de cidade ninguém merece.

...

-Ele chegou.

-Quem?

-O filho do seu Arthur.

-O que estava em São Paulo?

-Esse mesmo!

-Dizem que esta vindo porque a namorada o deixou!

-Seu Astrogildo da Fruteira disse que ele vivia com um colega.

-Será que ele é Marica?

-Não. Um homem daqueles não pode ser.

...

Cheguei. Aqui todos me conhecem!


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O Relato

Sempre achei que, na minha vida, nada acontecia. À noite olhando para o teto perguntava, não sei se a mim mesmo, se um dia seria completamente feliz. Parece que sempre falta algo e aquele probleminha, em percepções diferentes, se torna um problemão. Acho que é da natureza não darmos valor ao que temos, mas sim, sempre querer, querer e querer...Costumava a rezar sempre na hora de dormir. Agradecer por ter saúde, por ter uma família, por ter comida...agradecer por ter sempre o mínimo pra viver. Parei de rezar. Nada acontecia, eu continuava lá, sempre querendo algo, sempre com alguma lacuna a ser preenchida.

Era um sábado de tarde cinza e ventava muito. Trabalhei até o meio dia e fui para o bar beber. Cheguei em casa, as crianças estavam brincando com bolinhos de terra no quintal e Cândida estava terminando de preparar o almoço. Sempre manhosa, reclama de terríveis dores de cabeça e tontura. Não é nada, mulher. Deixa de frescura! Eu dizia para ela. Uma vez recebi uma guarda-chuvada na cabeça por causa disso. Para mim era sempre manha.

Nesse dia ela desmaiou, não respondia. Corri, tirei o carro da garagem e fomos ao hospital. Nunca tive num hospital. Quando o médico disse que era complicado o quadro da minha esposa entrei em desespero. Estava com tumor cerebral. Tão vulnerável a situação tão pequeno diante daquilo tudo...

Foram seis meses de pedidos, promessas, rezas, até que ela faleceu. Tudo que ficou foi a culpa de um egoísmo exorbitante e a certeza de que eu tinha tudo para ser feliz e não fui.

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Cinco perguntas para Moacyr Scliar:

1) Gostaria de saber se alguns de seus contos são inspirados em alguma situação verídica e qual a influência da realidade na sua obra?
Semanalmente escrevo para a Folha de São Paulo um conto baseado em alguma notícia do jornal. Alem disto, muitos contos foram inspirados em acontecimentos veridicos.

2) O conto em que o senhor escreve sobre a repressão da ditadura e um pai (delegado) que solicita para personagem escrever um conto para um concurso para agradar o filho parece ser tão verdadeiro. A história aconteceu?
Não, mas poderia ter acontecido...

3) A impressa abriu portas para a divulgação do seu trabalho?
Sim, nunca tive problemas em publicar.

4) O senhor concorda que o conto é desvalorizado e que as mídias (jornais, revistas, blogs..) sejam grandes difusoras desse gênero literário?
De fato, o conto no passado era mais prestigiado. Hoje jornais e revistas dão pouco espaço para este genero.

5) Qual foi o seu primeiro conto?
Foi uma historinha infantil cujo título ja não lembro...


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O trauma

Fechei os olhos por cinco segundos. Levantei a cabeça e por todo o lado era só sangue. Foi automático. Inclinei a cabeça levemente para lado esquerdo para ver meu filho. Estava inconsciente. Carlos e Bernardo estavam entre as ferragens do que era um velho opala, desfigurados. Os paramédicos chegaram e com dificuldades na fala perguntei, meu filho estava bem, Carlos e Bernardo tinha falecido. Dois dias depois foram sepultados. Caixão fechado. Não pude comparecer, sofri uma lesão séria na coluna e os médicos não tinham sequer esperança que eu pudesse voltar sentir os movimentos das pernas. O tempo, por menor que fosse, era uma eternidade em cima da cama. Cagava e mijava no leito. Conheci uma enfermeira. Aparentava ter uns cinqüenta anos, mas tinha apenas trinta e nove. Marcava no relógio. Às três horas da manhã ela fazia uma visita noturna. Levantava o lençol lentamente e apalpava minha região pubiana. Vagabunda! Fingia estar dopado com os medicamentos. Quando ela saia tudo que eu sentia era uma sensação de fragilidade, nem mesmo impotência, fragilidade. A coitada era tão feita que seus peitos se confundiam com a barriga, dando uma forma quadrada. Lembrava o desenho que meu filho gosta de ver, bob esponja. Às nove horas da manhã ela trazia o café. Tudo aquilo já estava me cansando. Então caguei na cama e tapei com o lençol.

-Bom dia!

-Bom dia. Respondo seco.

-Vejo que o senhor conseguiu sentar na cama sozinho hoje. Sinal de melhora.

-Enfermeira senta aqui. Vamos conversar um pouco.

-Claro. Fala com um riso entre dentes. A olho por cinco segundo. Levanto uma ponta do lençol, a pego pelos cabelos com uma fúria, revolta e nojo. Esfregando a cara dela na merda esbravejo:

-Puta velha! Vai arrumar um homem. Não está vendo que acabei de sofrer um trauma?

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