-Porra, Dorival! Já disse que não. Isso é tão vulgar!
As negativas da esposa estavam minando o interesse de Dorival por Edinéia. A mulher, de forma alguma, cedia, tinha nojo, asco só de pensar.
-Cuidado, Néia. O que o homem não tem em casa vai procurar em outro lugar, hein? Alertava, Bethi, amiga mais próxima do casal.
Com o tempo Edinéia notou a falta de interesse do Marido. Fazia depilação, mudava o corte de cabelo, e até ousou: Comprou peças íntimas com estampas do Crêmio, time do coração do Dorival. Tudo em vão. Sábado pela manhã costumavam a fazer feira juntos, Dorival e Edinéia, mas aquele dia o marido de dona de casa se sentiu indisposto e disse que não iria. Edinéia saiu, comprou, frutas, algumas leguminosas e queijo, na feira tinha uma banquinha de produtos colônias e Edinéia sempre comprava queijo de prato. Ao chegar em casa estranhou o silêncio. Quando chegou na cozinha sua amiga Bethi estava com as mãos apoiadas na mesa, pernas levemente afastadas e Dorival, atrás num frenético vai-e-vem.
-Eles gostam é disso porque é apertado, Néia! Diz Bethi entre gemidos ao ver a amiga.
Edinéia largou as compras na mesa e, aparentemente, não surpresa com a situação:
-Pois se ele quer enfiar esse tico murcho em um lugar apertadinho, que vá comer um tijolo, filho da puta!
-E tu, querida, pode dar esse teu cu podre pra ele, mas se encostar mais uma vez na minha mesa furo esses teus peitos caídos, ta me entendo?!
Raquel sentou no cordão da calçada, quando percebeu que alguém se aproximava.
-Oi, sua boneca é linda!
A menina assustada não responde e continua penteando os cabelos da boneca.
-Me empresta? Pergunta a garotinha de rosto sujo à Raquel.
-Não. Não empresto, não dou e não deixo você tocar nela!
Raquel, olha a menina e continua:
-Suas mãos estão imundas vai sujar o vestido da minha filha! Raquel olha para a boneca.
A menina suja tem uma idéia:
-Olha vamos apostar?
-O quê? Raquel fica curiosa
-Eu aposto que você não consegue atravessar o sinal assim que ele abrir! Desdenha a menina suja. Raquel fica em silêncio
-Vamos combinar o seguinte, se você tiver coragem de atravessar o sinal, assim que ele abrir, eu vou embora e deixo você com a sua boneca idiota. Se você não tiver, tem que me dar a boneca. Combinado?
-Tá certo! Diz Raquel em tom baixo olhando para boneca.
As duas garotas caminham até o sinal que fecha. Aflitas, aguardam o sinal abrir.
O sinal abre e as duas saem correndo na frente dos carros. A menina suja comemora a vitória, já segura no cordão da calçada. Em volta da Raquel uma multidão aglomera-se, a menina está morta. A boneca está, apenas, suja no canteiro de flores no meio da avenida, a menina a apanha e sorrindo diz:
-Seu nome será Raquel!
-Mãe, tô saindo. Tchau!
Daniela bateu a porta e saiu de cantinho sem que sua mãe a visse, caminhava em direção ao ponto de ônibus. Passou na frente dos operários que estavam colocando calçamento na rua, nariz em pé, peito estufado é bunda arrebitada. Mas deveriam estar muito ocupados, pensou Daniela, já que não ouviu, se quer, um assobio. Entrou no ônibus não pode deixar de perceber que algumas meninas que estavam indo para a escola cochichavam e a olhavam de cima a baixo.
-Que é, tô cagada?
Indagou as meninas que ficaram sérias. Depois de muito andar, Daniela cansou e voltou para casa, entrou em seu quarto e desabou a chorar.
Com cigarro no canto da boca e limpando as mãos no avental, dona Jurema vai até o quarto da filha:
-Caralho, lá vou eu de novo. Resmunga sua mãe.
-Daniela, o que houve?
-Sou feia, mãe! Ninguém se quer olha para mim.
-Já falei, Daniela, pára de comer. Parece uma porca!
-Mas, mãe...
-Cansei! Exclama a mãe.
-Já paguei, academia, já comprei remédio, já levei no terapeuta. Chega!
-Ah, pára de usar minhas roupas, estão todas largas!
Dona Jurema volta para o tanque.
-Daniela vem recolher a roupa. Acho que vai chover!
Quando o assunto era gostar, Adriano, era seguro do que queria:
-Gosto é de homem, caralho!
Conheceu Fabio na balada em São Paulo. Um daqueles cara que fazem questão de mostrar o porte físico tirando a camisa e se mexendo como se tivesse cagado perna baixo. Adriano gostou dele. Gostou dele quando foram jantar, quando foram ao cinema, quando foram no parque. Na cama de um motel, com pernoite a trinta e cinco reais, Fabio, debruço, solicita ao namorado:
-Me chama de putinha?
Adriano olha Fabio com repulsa, veste as calças as pressas, pega o carro e deixa a conta do motel para Fabio pagar.
No caminho para casa, Adriano pensa: “Puta que pariu, quase que caio no truque!”