Eu conto

(Des)pretenções literárias.


Conto 16

Olha no relógio: 17:45. Fernanda está no ponto de ônibus. O dia tinha sido exausto seu patrão havia mandado ela refazer um relatório mensal, o colega filha da puta tinha a chamado de gorda mal comida e pra piorar tinha quebrado uma unha no teclado do computador. Mesmo assim estava contente, pois ela o veria. Não sabia sequer o nome, não precisa estava apaixonada pelo cobrador do ônibus.

Era loiro, aparentava ter uns vinte oito anos, cabelos curtos delineando seu rosto quadrado e másculo. Olhos azuis não eram grandes, nem pequenos, eram perfeitos. Sempre simpático, seu sorriso era um alento no fim do seu dia. Mas Fernanda era tímida, nunca conversou com o rapaz. Tremia quando sua mão tocava a dele na entrega do troco.

-É dois reais, moça!

-Obrigada.

Com muita confiança decidiu agir. Anotou o número do celular em uma nota de cinco reais na esperança que ele visse e ligasse. Passou o tempo e nada.

Aquela quinta-feira, Fernanda, foi direta:

-Olha, eu sei que tu está no horário de trabalho, mas eu gostaria muito de tomar um café com você!

Anotou o número do celular no bilhete da passagem e ofereceu ao cobrador. O cobrador apanhou o papel enfarruscando a testa. Sem que Fernanda percebesse embolou, amassou e limpando as mãos, jogou no lixo.

Fernanda esperou aflita, quase não dormiu aquela noite. Mas nada aconteceu. No dia seguinte, entrou no ônibus e não era mais o mesmo cobrador.

-Ué! Não é mais o moço loiro? –Perguntou espantada.

-Não. Ele pediu transferência.

Fernanda passou a roleta, procurou o último assento, por sorte estava vazio, tirou da bolsa um óculo escuro e da janela do ônibus, olhando o horizonte, não sabe porque chora, mas tem certeza de uma coisa:

“Sou uma ridícula mesmo”.


|

Conto15

-Não tá esquecendo de nada?

-O quê?

-Ah...Meu palitó, obrigado amor!

-Não Henrique, não é seu palitó.

-Meu celular, tá aqui. Não, amor. Tá tudo aqui.

-Que dia é hoje?

-Terça-feira e estou atrasado.

-Henrique se você sair por aquela porta sem lembrar que dia é hoje, está tudo acabado.

-Tá brincando?

-Não. Agora me diga que dia é hoje?

Irritado, Henrique apanha o palitó que ainda estava pendurado na cadeira, toma um gole de café e sai pela porta. Não ligou para as ameaças da mulher.

-Tchau, Raquel. Até mais tarde.

Raquel era só ódio do marido. Esperou-o com o jantar já na mesa, tudo arrumado clima de romance, meia luz, Amado Batista no rádio.

-Nossa, mulher! Tu caprichou hoje. Mas tira esse vestido. Ta parecendo uma vadia.

Raquel subiu e tirou o vestido. Foi até a cozinha colocou uma chaleira no fogo e quando estava fervendo, foi até a sala, onde Henrique está deitado no sofá assistindo A diarista. Raquel, por trás do sofá, despeja a água quente no rosto do marido lentamente. Ele se debate, corre até a porta com as mãos no rosto, cai, uiva de dor. Raquel vendo o sofrimento do marido e a face toda deformada tem um ataque de risos.

-Feliz dia dos namorados, Veado!

|

Conto 14

Curtinhos

Ursula era uma garota pacata, mas sempre a frente de seu tempo. Gaúcha, foi morar em São Paulo, devido a oportunidades. Na infância sempre foi uma garotinha tímida, e desde já, muito independe. Diferente dos pais, que eram frutos de uma cultura machista.

-Minha filha, tu tem e que aprender cozinhar, lavar roupas...Os homens não gostam de mulheres que não são prendadas. Dizia dona Maria, que já não sabia mais o que fazer com a filha travessa. O tempo passou e nada mudou naquele lugar, agora Ursula era uma mulher, estudada. Virou Designer. Dona Maria acredita que finalmente a filha tomou jeito na vida, Ursula disse que está casada. Um alívio para mãe. Mora em um apartamento no centro de São Paulo, não é grande, mas para ela e a namorada, dá certinho.

....

-Jerusa, já te disse o quanto você é importante pra mim? Se Deus olhou alguma vez por mim foi quanto colocou você no meu caminho. Aroldo diz soluçando, sua esposa continua sentada segurando-lhe a mão e muda.

-Sempre soube que você era a pessoa certa, cria nossos filhos com amor, e não permita que se esqueçam de mim, faz deles homens dignos e honestos. Quero que saiba que não ficará desamparada. Não disse para você, pois sabia que não era hora, mas fiz seguro de vida e esse dinheiro cobrirá grande parte das despesas com os meninos. Amo-te, querida...Cansado, Aroldo, fecha os olhos.

-Era só isso que eu queria saber. Jerusa levanta, tranca a porta e desliga os aparelhos que ainda o mantinham com vida.

|



Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com