Eu conto

(Des)pretenções literárias.


Dia dos Namorados

-Amor, sabe que dia é hoje?

-Não. O Inter Joga, hoje?

-Não, seu bobo! É dia dos Namorados!

-É, e daí?

-Ai, namorados fazem coisas diferentes nesse dia, sabia?

-É? Então paga uma goela aqui.

-Seu grosso!

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Na Zona

Chulé, como era conhecido, decidiu esquecer as dores da vida nos braços de Bia, uma putona de presença.

-Me come piçudo!

Chulé dá um tapinha da bunda de Bia e geme:

-Além de puta é mentirosa!

...

Agenor queria dar uma rapidinha:

-Quanto?

-É setenta pila, Tio!

-Tudo isso, dá um bom churrasco, não é não. Tu faz chupisco?

-Sim. Só de camisinha!

-De camisinha até eu chupo. Tchau!

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Mulherices e sapatos

Jayane amarrou os cabelos, vestiu uma mini saia, uma blusa realçando seu busto e desceu, com seus sapatos novos, o morro. Economizou o mês inteiro para aproveitar a liquidação de calçados. No caminho cumprimentou a dona Marlene que estendia roupas no varal, os moleques fedorentos a cola a chamaram de gostosa e Jonival curvou o pescoço para olhar o desirré da moça. Jayane mostrava maestria ao descer a ladeira de paralelepípedo de salto alto, quando de repente um tiroteio começou ao seu redor entre traficantes e policiais. A correria foi total, até os bêbados do bar da esquina, ainda que cambaleantes protejeram-se. Jayane havia comprado o sapato no dia anterior. Foi amor a primeira vista, mas não tinha o seu número. O sapato ficou apertado, mas tinha caído bem eu seu pé e combinava com uma calça jeans que adorava. Não conseguiu correr e foi alvejada. Caída no chão Jayane comemorou:

-Caralho, ainda bem que não quebrou o salto!

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Alívio

-Tu sabes onde esse pau no cu mora?

-Sei sim. Ele está morando numa pensão na cidade baixa, no centro!

Gilson abre a gaveta, apanha com fúria o revolver e o guarda na cintura. Sai batendo a porta. Dirigindo um Chevet antigo, acende um cigarro. Quase nem acredita que vai matar aquele filho da puta. Agora está na avenida Ipiranga e vê um menino deitado no sol dormindo, pensa que devia estar drogado. No sinal uma moça, ainda jovem com um filho nos braço, pede trocados. Que vadia...pensa, mas logo vê na sua mente o rosto transfigurado de sua mãe.

Toda vez que Gilson olhava o rosto da mãe lembrava da fatídica tarde de sábado quando, apenas com três anos de idade, passeava próximo do parque da redenção onde costumava a brincar nos fim de semana. Naquele dia eles sofreram um assalto, resultando a perda de uma das visões de dona Ermendina. O assaltante deu um tiro muito próximo a cabeça de sua mãe que com o estouro acabou vazando a vista esquerda. Passou quinze anos depois do assalto e nisso, Gilson descobriu que o assaltante era filho de um de seus vizinhos, depois do assalto, o filho da puta tinha desaparecido e agora estava de volta.

Gilson chega num antigo prédio, caindo aos pedaços, um senhor de bigodes longos e engraxados o atende não dando muita importância, há uma escada que range ao pisar os degraus, parecendo desabar qualquer hora. Quarto 26. Com um chute na porta, Gilson adentra a casa de Jurandir. O assaltante acorda assustado, Gilson dispara um tiro no meio da testa de Jurandir que cai com os olhos abertos no chão.

-Tu tá olhando o quê, seu cuzão?

Com as mãos, Gilson retira o olho esquerdo de Jurandir esconde no bolso e desce as escadas calmamente, abre a porta do chevet e volta para casa da mãe.

Chegando em casa, com as mãos ainda sujas, coloca sobre a mesa da cozinha o olho de Jurandir.

-Pronto, mãe!

Os dois dão um longo abraço e o coração de Gilson parece mais leve, tão leve que chega a assusta-lo, sabe que não trata-se de felicidade, mas um alivio como se esses anos todos não tivesse dormindo e agora pela primeira vez, descansasse.

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Palavras

“Hoje eu digo” – Gabriela pensava ao descascar as batatas para fazer a janta do marido, Pedro. Seus pensamentos são interrompidos pelas mãos que chegam afagando seus seios por trás.

-Oi, amor. Nem vi tu chegar. Como foi o seu dia.

-Bem. E o seu

-Também.

Gabriela vira e o beija apaixonada. –O Jantar está quase pronto.

Os dois dirigem-se para sala, jantam e conversam sobre amenidades e vão para o quarto.

Gabriela ensaiou o dia inteiro para dizer uma coisa que só de pensar a deixava molhada. “mulherices” pensava. Ela tinha medo de tomar certas atitudes na hora do sexo com seu esposo. Pensava em muitas coisas, mas tinha medo de expressar até quando queria mais forte, dizia para si mesmo:

- Contenha-se, Gabriela. O que ele irá pensar. Questionava.

Quando o marido a chamava de puta, cadela e outros adjetivos do gênero, Gabriela subia pelas paredes e tinha múltiplos orgasmos. O marido pensava que tinha feito um bom serviço, mas Gabriela já havia pensado sobre o membro do esposo e sobre a afirmativa de que tamanho não é documento.

-Vou tomar um banho, amor.

-Estou te esperando!

Pedro está nu por debaixo dos lençóis. Toda perfumada Gabriela adentra o quarto, deitas-se ao lado do marido que a beija loucamente, lambe seus mamilos enrijecidos a coloca de quatro, quando houve a mulher dizer:

-Quero sujar teu pau de merda!

Pedro a empurra fazendo com que Gabriela caia da cama e bata a cabeça no criado mudo ao lado.

-Sua porca! Onde você anda aprendendo essas coisas

No chão, Gabriela com a cara toda ensanguentada parecer ter convulsões de tantos orgasmos.

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Pecado
Enquanto o pastor terminava seu sermão sobre pecado, as atenções de dona Normélia eram atraídas para a caixinha de donativos que ia passando pelas mãos dos fies. Procurou na carteira, mas não tinha nenhuma moeda, apenas uma nota de cinqüenta reais, o dinheiro da semana. Se doasse aquela quantia para igreja, certamente, iria passar necessidades durante a semana até receber a pensão do marido. Olhou para os lados e achou melhor guardar o dinheiro, Deus a perdoaria, pensou. Pensou errado. Na saída da igreja universal do reino de deus, dona Normélia levou um rodopião de um guri que levou sua bolsa. A carola acreditou ser um castigo. Nem desconfiou que o filho da puta do moleque trabalhava para a igreja a mando do pastor.

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Jony

Ele era um cachorrinho muito esperto. Quando o assunto era comida, o cãozinho não fazia-se de rogado. Num daqueles domingos de sol, quando a família, sua dona, se preparava para um almoço. Jony avançou-se no espeto de carne e fugiu de casa. Ele tentou voltar, mas foi corrido a vassouradas por dona Clemência. Foi tentar a sorte na cidade. Era tudo muito atrativo, havia vários restaurantes e, na certa, ninguém iria negar-lhe um ossinho que fosse. Certa vez Jony voltava para casa, tinha passado a noite inteira tentando cruzar com a negruxa, uma cadelinha muito faceira e bem carnuda da redondeza, mas os outros vira-latas não deixaram sequer ele se aproximar dela. Estava faminto, conseguia sentir sua barriga encostar-se à espinha. Sentiu um cheiro, ergueu as orelhas e foi ao rastro, achou um ossinho. Não era grande coisa, mas antes aquilo do que nada, antes um pássaro na mão do que dois voando, pensou. Depois de ter roído o que pode, resolveu esconder e com o osso na boca, procurou o melhor local quando estava passando pela ponte do riacho olhou para baixo e viu um enorme de um osso. Teve duvidas, mas não demorou a se decidir. Soltou o ossinho, insignificante agora, e pulou no riacho. Mas percebeu que o osso não estava mais lá. Era o reflexo do osso que estava na boca. Como fazia muito calor e ele precisava de um banho aproveitou para refrescar-se no riacho.

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